“O povo deu, o povo comeu” por Moacir Melo

O título deste artigo foi o lema de uma festa religiosa em louvor a Nossa Senhora D’Abadia (agosto), acontecida no início dos anos 80, século 20, em uma das pequenas Vilas que compunham o vasto território do município de Jaraguá, Goiás, de então. A história, verdadeira, merece ser narrada aqui, até como forma de esquecermos nossas angústias decorrentes – pelo menos por algum tempo – das corrupções que detonam nosso país, injustiças que deixam os pobres cada vez mais pobres, mordomias que sustentamos sem tomarmos conhecimentos e faltas de perspectivas para o futuro.

Pois bem, a festa era uma tradição na comunidade de ser cada ano mais animada e sempre cheia de inovações. Foi neste contexto que o então Vigário da Paróquia de Jaraguá, muito entusiasmado, convidou e convocou para ser “FESTEIRO” do ano o Senhor ZÉ DE TAL, porquanto era um cidadão de bem com a vida, pequeno mais influente empresário, muito conhecido na comunidade, com muitas rodas de amigos influentes na cidade e no meio rural, querido por todos, detentor de diálogo fácil, ótimo contador de anedotas, entre outros méritos. Um FESTEIRO ideal.

ZÉ DE TAL aceitou o desafio e não se fez de rogado. Arregaçou as mangas e foi à luta: fez todos os contatos na cidade, convocou os amigos, percorreu toda a região de influência do pequeno povoado pedindo de tudo: frangos e/ou quaisquer aves, leitoas,  porcos, vacas e bois para corte. Não pedia dinheiro porque sabia que não dispunham. A seguir, convocou para servir à SANTA as melhores cozinheiras, churrasqueiros e leiloeiros da região. Enfim, criou uma grande estrutura de alimentação que, nos dias de hoje, seria denominado de mega cozinha industrial.

A festa aconteceu como de costume (novenas, rezas, foguetes, missas) e foi reconhecida como a melhor de todos os tempos. Também pudera! A mega estrutura de cozinha funcionava o dia inteiro como uma indústria: As doações de animais vivos iam chegando e, imediatamente, iam para o abate e virava alimentação do povo devoto; quando já preparados, melhor ainda, virava alimento imediato. Sanfoneiros, violeiros, cancioneiros, catireiros e outros animadores motivados por uma cachacinha de engenho fabricada na região, dava o tom da festa.

Terminado o evento, após quatro dias de festança que não parava mais, o Vigário convocou o FESTEIRO (ZÉ DE TAL) para promover o acerto, na expectativa de um lucro fabuloso que o ajudaria nas obras sociais da igreja, município afora. Qual foi a grande surpresa do vigário que ouviu do FESTEIRO: Que lucro? Não sobrou nada!  Executei o lema da festa: “O POVO DEU, O POVO COMEU”.

ZÉ DE TAL, nunca mais recebeu outro convite para ser festeiro. Porém fez história.